A origem

Por Luiz Schwarcz


Tirinha “Os passarinhos”, de Estevão Ribeiro.

De onde vem o que escrevemos? É o que sempre me pergunto, como editor, e nos meus raros momentos como escritor. Posso assegurar, não há resposta. O leitor que escreveu sobre meus últimos posts — notando que num deles eu falava de depressão, noutro da Nona Sinfonia de Mahler, escrita pelo compositor assolado pelo medo da morte — estava tocando na ferida. É claro que não podemos abusar da psicologia. Eu fui assistir à Nona Sinfonia de Mahler em Lucerna, pois era a penúltima apresentação do ciclo completo que Claudio Abbado está realizando. Gosto dela como gosto dos concertos de piano de Mozart, dedicados à alegria de viver.

Lembro do primeiro trecho que li de Estorvo, o primeiro romance de Chico Buarque que editei, e o único livro ao qual tive acesso durante a escrita; os outros recebi totalmente finalizados, e sem saber, previamente, quase nada sobre os temas e enredos. Com Estorvo foi diferente. Eu já conhecia o Chico pessoalmente, e acompanhava sua ansiedade quanto à carreira de escritor que iria iniciar com o livro — Chico não considerava Fazenda modelo, novela lançada em 1979, como parte da história literária que começava a construir.

Marcamos um encontro em São Paulo, no fim da tarde, no restaurante Rodeio. Estávamos nos Jardins, na rua Haddock Lobo, perto de onde Chico morara quando criança. A entrega do trecho do livro que começara a escrever, para que passasse pela leitura de um editor, trouxe a ele lembranças da casa paterna, da seriedade que o pai reservava à literatura, e da frase que sempre repetia: “literatura é coisa séria, meu filho, é coisa séria”.

Quando Estorvo foi publicado, ousamos bastante na estratégia de divulgação. Enviamos o livro para os melhores críticos, com um mês de antecedência, pedindo sigilo e embargando qualquer comentário até o dia escolhido para a publicação. Foi uma enorme tensão manter o embargo, principalmente quando os jornais descobriram, através de um dos críticos, que as provas estavam espalhadas pelo Brasil. Mas não havia outro jeito. Eu tinha ouvido comentários muito preconceituosos por parte de vários jornalistas, ao receberem a notícia de que o compositor decidira escrever um romance.

Passado certo tempo, o Jornal do Brasil avisou que iria furar o embargo. Eu ameacei o diretor da sucursal de São Paulo, um amigo de longa data, dizendo que se ele levasse em frente aquela decisão, deveria me entregar o jornal no Incor, para onde iria naquele mesmo momento.

Deu certo. O embargo foi mantido, e Chico acabou brindado com resenhas de críticos que normalmente não escrevem com muita frequência para jornais e revistas. Dentre as críticas, Chico leu em Paris a escrita por Roberto Schwarz para a Veja. Emocionado, me telefonou falando que nunca uma obra sua fora analisada com tanta profundidade. Durante nossa conversa por telefone, me descreveu sua visão de pessoas que inspiraram certos personagens. Em alguns sentidos, o autor entendia o livro de maneira diferente da exposta pelo crítico. Ou então, talvez se dera conta, naquele momento, dos vários sentidos possíveis daquilo que escrevera; tudo isso passeando sozinho pelas ruas de Paris e embalado pelo comentário de Roberto Schwarz.

Sem querer sugerir qualquer tipo de comparação descabida, quando escrevi meu primeiro livro de contos, também entendi parte do que escrevera somente após a publicação. As coincidências que uniam o livro desembocavam no texto final, sobre um homem bem sucedido que pensa em como escrever sua biografia. Ele não imagina nada de laudatório, tudo o que lhe vem à cabeça são pequenos percalços e fracassos, entre eles o prêmio que se prepara para receber, provavelmente comprado pelo diretor de marketing da sua empresa.

No final ele pensa no primeiro quadro de sua coleção, uma paisagem marinha, onde na verdade o que lhe intriga é o capim que nasce na areia. Um capim inesperado, improvável, fora do lugar. Foi a metáfora, talvez um pouco simplória, com a qual queria encerrar meu livro, respondendo à pergunta que inicia esta crônica, “de onde vem o que escrevemos”? Ninguém sabe. Ainda bem.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Minha vida de goleiroDiscurso sobre o capim, entre outros. Seu novo livro, Linguagem de sinais, será lançado pela editora em setembro. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

Mergulho na programação

Por Mariana Mendes

Não demorou para eu descobrir que havia caído no departamento que lidava com um público especial para a editora, o dos professores. Sobretudo pelo fato de que eles leem os títulos que lançamos. Claro, a Companhia tem leitores em todas as áreas, mas os professores fazem parte de uma classe bibliomaníaca. É transparente, vê-se nos olhos a paixão. Divirto-me quando um dos muitos que costumam visitar a casa comenta: “deve ser maravilhoso estar diante de tantos livros!”, referindo-se à parede coberta deles que vai do chão ao teto, para a qual eu sento de frente. Respondo, sempre: “é muito bom trabalhar aqui”, tentando provocar mais inveja!

Infelizmente não passo o dia lendo as obras que a editora publica. Esta seria a condição ideal: segunda a sexta, todo o expediente dedicado à leitura. Impossível, claro. Conformada por não acreditar em condição perfeita para o trabalho, deixo-me levar por rotinas que cercam o processo de edição e produção do livro. Ler a programação é uma delas. É a vez de meus olhos brilharem.

Semanalmente, às quartas ou quintas no período da tarde, recebo das mãos do Thiago Diniz a cópia impressa da programação. Imagine uma tabela do Excel em uma página A4, configurada no modo paisagem. Povoe essa página com milhões de letrinhas e números formando um exército de informações precisas sobre a publicação de todos os livros da editora.

Os números que constam no resumo falam por si: no primeiro semestre do ano, a editora acumulou 123 livros lançados. Daqui até o final do ano, serão publicados mais 124. Resulta em uma média de 20,5 livros a cada 30 dias. Se fossem apenas 247, mas somam-se as reimpressões e os livros comprados pelo governo, para os alunos ou bibliotecas, além da venda para empresas ou instituições financeiras. Ainda que segmentados entre obras para adultos, quadrinhos, infantojuvenis, bolso, o selo claroenigma e o filhote com jeito de gente grande, o selo penguin-companhia, é um mundo de livros, não se pode negar.

Nas linhas estão dispostos títulos e autores, nas colunas, dados diversos resgatam a história do livro, como, por exemplo, a célula que é preenchida pela data em que o original “desceu” do editorial para a produção — o verbo empregado se deve ao fato de o editorial ficar no quarto andar e a produção no terceiro. Além de traçar a trajetória de cada livro, a programação fornece desde as características físicas, como altura e largura, até os nomes próprios que se relacionam com o processo, como os editores responsáveis, identificados pelas iniciais: BE é Maria Emilia Bender, MG é Marta Garcia e JS é Júlia Schwarcz, só para ficar nas mulheres. O mesmo para os capistas: KF é Kiko Farkas, WL é Warrak Loureiro, RA é Rita Aguiar. A programação também mostra as tiragens. Se serão três, como O menino que odiava mentira, ou trinta mil: O Palácio de Inverno. Confesso ainda não ter domínio sobre as siglas das gráficas, sei menos ainda sobre os códigos do papel. Já me disseram que há uma coluna que informa se vai verniz na capa, mas como só consta na programação que fica na rede, não na impressa, não lembro qual coluna é…

A programação no papel apresenta o futuro próximo, já que nela constam apenas os títulos a serem publicados nos próximos seis meses. A programação disponível na rede, acessível para muitos funcionários, possui livro programado até agosto de 2013. Nela os anos acumulam-se sem pudor, e os livros se multiplicam. No quarto andar, semanalmente, às terças de manhã, a equipe editorial se reúne para discuti-la. O que entra, o que altera e por quê? E sempre há mudanças de uma semana para outra. A programação é orgânica, viva. Ao final, o tempo se dissipa e temos uma “canja” dos livros que compõem as sobras, os contratados, apalavrados, o pré-limbo, o limbo e, por fim, os cancelados.

Hora de voltar à superfície, respirar fundo e retomar de onde parei.

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Mariana Mendes trabalha na Companhia das Letras desde 1998 e é supervisora de divulgação escolar.

Links da semana

O homem da foto acima, Steve Hare, é o dono da maior coleção de livros da editora Penguin. Ele tem mais de 15 mil títulos, e pretende conseguir todos os que lhe faltam que foram publicados antes da década de 1970.

Neste sábado haverá a inauguração da exposição de Rafael Coutinho na galeria Choque Cultural. O artista vai mostrar as ilustrações que deram origem à graphic novel Cachalote. Além disso, haverá a exibição de uma animação-teaser da hq, feita pelo Estúdio Birdo, e a venda de pôsteres e do boneco que mostramos na semana passada.

O editor André Conti tem uma coluna quinzenal no Brasil Econômico, e começou um site que manterá atualizado com todas as suas contribuições. Milton Hatoum também inaugurou um novo site, onde ele mostra as capas de seus títulos publicados ao redor do mundo.

Neste final de semana foram anunciados os vencedores do Harvey Awards, e o vencedor da categoria melhor graphic novel foi Asterios Polyp, de David Mazucchelli, que será publicado pela Quadrinhos na Cia. no ano que vem. A hq já havia ganhado o Eisner Award da mesma categoria.

O Wellington, do Digestivo Cultural, resenhou A ilusão da alma, de Eduardo Giannetti, cujo trailer você pode ver no YouTube. No mesmo site, Jardel fala de Rimbaud e examina a biografia do poeta escrita por Edmund White.

A conversa entre Robert Darnton e Lilia Moritz Schwarcz sobre racismo e a identidade nacional no Brasil, que saiu na New York Review of Books, já pode ser lida em português aqui no blog.

O blog Casmurros, depois de listar os 20 melhores escritores brasileiros com menos de 40 anos, está entrevistando cada um.

Vladimir resenhou em seu blog Humilhação, de Philip Roth. A Companhia está promovendo um concurso cultural que premiará três pessoas com exemplares autografados do livro. A Amanda, do The Sun Sets, resenhou Homem comum, do mesmo autor.

Um artigo do jornal The Boston Globe mostra que muitas das dúvidas que temos hoje em dia, devido à popularização dos e-books, também apareceram na época de Gutenberg. A Slate calculou e conclui que e-readers realmente são mais ecológicos que livros impressos — contato que você leia títulos o suficiente para compensar o impacto da produção dos aparelhos.

O Google lançou uma ferramenta, ainda em fase de testes, que destaca as mensagens mais importantes no seu Gmail, e o Prêmio Jabuti anunciou seus finalistas.

A Luani, do blog O Espanador, resenhou o livro infantil O rei e o mar, de Heinz Janisch. A Anna, do blog Terapia Zero, falou sobre os livros da trilogia Millennium, de Stieg Larsson, e a Marlúcia, do blog Evoé, falou de O fio das missangas, de Mia Couto. O autor moçambicano deu uma entrevista à revista Nova Escola.

O Rodrigo, da revista Cult, resenhou Ideologia e contraideologia, de Alfredo Bosi. A Taize, do Meia Palavra, fala sobre Luka e o fogo da vida, de Salman Rushdie, e o Cly, do Clyblog, leu Leite derramado, de Chico Buarque.

A Saraiva lançou um aplicativo para leitura em iPad e iPhone. Com isso, os títulos adquiridos em sua loja de e-books também podem ser lidos no aparelho da Apple.

Dorina Nowill, criadora da Fundação para o Livro do Cego no Brasil, faleceu neste domingo. Veja um vídeo que mostra como é feito um livro em braille.

Conversando sobre o Brasil com Lilia Schwarcz

Por Robert Darnton*


(Foto por Alex)

Em recente viagem ao Brasil, conversei com Lilia Moritz Schwarcz, uma das melhores antropólogas e historiadoras do país. Nossa conversa acabou convergindo para os dois temas que ela estudou com maior profundidade — racismo e identidade nacional.

Visitei o Brasil pela primeira vez em 1989, quando a economia estava quase paralisada pela hiperinflação, tiroteios irrompiam nas favelas e Lula, herói do movimento sindical mas ainda inseguro como político, realizava sua primeira campanha à presidência. Tudo aquilo me pareceu fascinante e assustador. Na minha segunda viagem, alguns anos mais tarde, conheci Lilia e seu marido, Luiz Schwarcz, que começava a transformar a editora que tinha fundado, a Companhia das Letras, numa das melhores casas editoriais da América do Sul. Eles me proporcionaram um dia repleto de brasilidade, que guardo na memória como uma das experiências mais felizes da minha vida: pela manhã, um passeio com seus filhos pelo parque mais importante de São Paulo, onde famílias de todas as cores faziam piqueniques e brincavam iluminadas por um sol deslumbrante; no almoço, um excursão por especialidades brasileiras nunca sonhadas por minha filosofia culinária (mas como não era dia de feijoada, nada de orelhas ou rabos de porco); uma partida de futebol internacional (o Brasil ganhou da Venezuela e as arquibancadas explodiram de alegria); e por fim, incontáveis caipirinhas e um espetáculo intimista de Caetano Veloso no auge do lirismo e das provocações políticas.

Desde então, nunca mais deixei de ficar maravilhado com a energia e a originalidade da cultura brasileira. Todavia não finjo compreendê-la, especialmente por estar em constante mudança. E eu não falo português. Posso apenas fazer perguntas em inglês e me esforçar para apreender as respostas. Teria o mito do Brasil como um “gigante adormecido” se tornado uma profecia que cumpriu a si mesma? “Ele despertou”, dizem hoje. A economia está em franca ascensão, o sistema de saúde se expande, a alfabetização melhora a cada dia. Há também profecias de ruína, pois a história econômica do Brasil lembra ciclos de crescimento e queda impostos sobre séculos de escravidão e empobrecimento. De qualquer modo, Lula está chegando ao final do segundo e último mandato como presidente. Seja qual for a opinião dos brasileiros sobre sua nova política externa, mais assertiva, que inclui o cultivo de relações amigáveis com o Irã (a maioria da população não parece interessada no assunto), em geral eles concordam que Lula gerenciou bem a economia e fez muito para melhorar a vida dos pobres. Seu mandato termina em outubro e ele está apoiando Dilma Rousseff, ex-chefe da Casa Civil de seu governo, cujas chances de vitória estão em grande parte amparadas na popularidade do presidente. O primeiro debate da nova campanha presidencial, ocorrido em 5 de agosto, foi um evento cordato — indicação, me garantem, de uma democracia saudável, que deixou para trás os tempos dos golpes. Agora os estrangeiros estão fazendo novas perguntas sobre o caráter deste novo grande poder. Transmiti a Lilia alguns dos questionamentos mais comuns.

Robert Darnton: A ascensão do Brasil como um dos protagonistas no cenário mundial suscita questionamentos sobre a identidade nacional do país. Alguns são hostis, como o que você diz ter encontrado em sua última viagem aos EUA: como você pode viver num país tomado por favelas e violência? Qual sua resposta a isso?

Lilia Moritz Schwarcz: É curioso como o Brasil hoje tem uma nova imagem no exterior. Costumávamos ser vistos como “exóticos”; um país de capoeira, candomblé, carnaval e mulatas. Continuamos a ser vistos como exóticos, mas esse exotismo ganhou um novo ingrediente: a violência, até mesmo uma nova estética da violência, especialmente no modo como o Brasil é retratado em filmes contemporâneos, como Cidade de Deus. O fascínio que muitas pessoas de fora do Brasil têm pelas favelas é ambíguo. Por um lado as favelas são vistas como comunidades violentas, sujeitas a líderes violentos alheios à autoridade do Estado. Por outro, são apenas “diferentes” — panoramas de uma cultura alheia à cultura dominante, com maneiras particulares e especiais de comemorar, dançar, jogar futebol. Não temos favelas por todos os lados, mas é o que gostam de pensar os estrangeiros. Criamos uma nova espécie de turismo, que inclui uma “favela tour”. É tudo falso, mas os turistas vivem a ilusão de experimentar um outro mundo. E você, Bob? Tem medo de andar por certas regiões de Nova York? Seria o Harlem um tipo de favela?

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A caminho do trabalho, inscrições em trânsito


(Foto por Renata Virzintaite)

Em agosto a Companhia lançou Em trânsito, livro de poemas urbanos de Alberto Martins. Leia abaixo uma carta do autor, onde ele fala sobre suas inspirações, e o poema-dedicatória que abre o livro.

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Conte um pouquinho a história do livro. Como você dividiu os poemas nas três partes que compõem o livro?

O livro surgiu a partir de 2000 mais ou menos. Nessa época, eu estava trabalhando no centro da cidade, no edifício Ester, e pegava ônibus e metrô todo dia. Comecei a prestar muita atenção na condição do transeunte e do transporte público. Depois me transferi para a [Editora] 34, que fica em frente ao rio Pinheiros, e comecei também a usar o trem da marginal Pinheiros. Assim, um núcleo de poemas, sobretudo os do início, A caminho do trabalho, tem a ver com essa condição de usar transporte coletivo, de estar na cidade, cruzar com pessoas na rua, no balcão de um café, de uma padaria, passear com o cachorro na rua. Tem a ver com essa existência pedestre.

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